jusbrasil.com.br
29 de Março de 2020
2º Grau

Tribunal de Justiça de Minas Gerais TJ-MG - Mandado de Seg. Coletivo : 10000190384685000 MG - Inteiro Teor

Tribunal de Justiça de Minas Gerais
há 2 meses
Entre no Jusbrasil para imprimir o conteúdo do Jusbrasil

Acesse: https://www.jusbrasil.com.br/cadastro

Inteiro Teor



EMENTA: MANDADO DE SEGURANÇA - OFICIAIS INTERINOS - SERVENTIAS EXTRAJUDICIAIS VAGAS - NEPOTISMO - INADMISSIBILIDADE - PROVIMENTO 77/2019 DO CNJ - LEGALIDADE -DESIGNAÇÃO - REVOGAÇÃO - POSSIBILIDADE - DIREITO LIQUIDO E CERTO - VIOLAÇÃO NÃO CONFIGURADA.

O Conselho Nacional de Justiça, ao editar o Provimento nº 77/2019, zela pela observância do artigo 37, da Constituição da República, e reforça a vedação de práticas de nepotismo nas serventias extrajudiciais vagas.

O oficial substituto interino de serventia extrajudicial vaga se submete aos princípios constitucionais da administração pública, dentre eles o da moralidade e da impessoalidade, pois são delegatários de serviços públicos, o que impõe a vedação de qualquer prática de nepotismo na designação com vínculo de parentesco com os ex-tabeliães.

MANDADO DE SEG. COLETIVO Nº 1.0000.19.038468-5/000 - COMARCA DE BELO HORIZONTE - IMPETRANTE (S): ASSOCIAÇÃO DOS NOTÁRIOS E REGISTRADORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS, COLÉGIO NOTARIAL DO BRASIL SEÇÃO MINAS GERAIS, COLÉGIO REGISTRAL IMOBILIÁRIO DE MINAS GERAIS, SINDICATO DOS NOTÁRIOS E REGISTRADORES DE MINAS GERAIS - AUTORID COATORA: CORREGEDOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS - INTERESSADO (A) S: ESTADO DE MINAS GERAIS

A C Ó R D Ã O

Vistos etc., acorda, em Turma, o ÓRGÃO ESPECIAL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, À UNANIMIDADE EM REJEITAR AS PRELIMINARES E, POR MAIORIA, DENEGAR A SEGURANÇA.

DES. KILDARE CARVALHO

RELATOR.





DES. KILDARE CARVALHO (RELATOR)



V O T O



Trato de mandado de segurança coletivo preventivo impetrado pela ASSOCIAÇÃO DOS NOTÁRIOS E REGISTRADORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS - SERJUS-ANOREG/MG e outros contra ato do CORREGEDOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, Des. José Geraldo Saldanha da Fonseca, que por meio do Aviso nº 4/CGJ/2019 determinou que os oficiais interinos preenchessem uma declaração, com posterior remessa à Direção do Foro da Comarca e à Corregedoria-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais, informando se as restrições contidas no § 2º do art. 2º do Provimento do CNJ nº 77/2018 lhes são aplicáveis.

Em suas razões recursais, sustenta os impetrantes que por intermédio do Provimento nº 77/2018, o Conselho Nacional de Justiça dispôs sobre a designação de oficial interino de serventia vaga, no âmbito dos serviços notariais e registrais dos Estados. Destacam que as disposições do referido provimento determina a impossibilidade de designar substituto que seja cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau inclusive do antigo delegatário. Alegam que representam vários tabeliães que possuem nível de parentesco com os antigos delegatários e que, recentemente, receberam da autoridade coatora documentação para assinatura com fulcro no Provimento nº 77/2018 do CNJ, oportunidade em que teriam que atestar que não são cônjuges, companheiros ou parentes em linha reta. Relatam que o objetivo de tal documentação é retirar os tabeliães de suas funções de interinos, em virtude da incompatibilidade com a disposição oriunda do mencionado provimento. Aduzem que foram verbalmente informados que seriam destituídos da função desde o falecimento dos titulares, assim, possuindo justo receio de violação de direito líquido e certo. Argumentam que o ato de violação de direito líquido e certo foi praticado pelo Excelentíssimo Corregedor-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais, a saber, o Desembargador José Geraldo Saldanha da Fonseca, desta forma se o ato impugnado é originário de desembargador, é atraída a competência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais para processar e julgar este mandado de segurança. Ponderam que não há de se falar que existiu uma ordem emanada do Conselho Nacional de Justiça apta a afastar a competência deste juízo, afinal, por possuir caráter meramente administrativo e fiscalizatório, não detém o CNJ hierarquia superior que justifique suposta ordem de fazer ou não fazer dirigida ao desembargador de Tribunal de Justiça. Apontam a irregularidade da súmula vinculante 13 ao caso e a impertinência da aplicação do art. 2º, § 2º do Provimento nº 77/2018 do CNJ. Mencionam que o Conselho Nacional de Justiça buscou vedar o nepotismo, logo, imprescindível é a análise da Súmula Vinculante nº 13, que sobreveio justamente para combater o nepotismo no âmbito da Administração Pública. Expõem que a atividade notarial se revela em delegação privada de serviço público, logo os tabeliões não são servidores públicos em sentido estrito, mas particulares em colaboração com o Poder Público, mais especificamente, agente delegado. Defendem que não há que se falar em nomeação no âmbito notarial e de registro, mas tão somente em delegação, inaplicável ao caso é a Súmula Vinculante 13, que literalmente prevê sua aplicabilidade tão somente aos casos de nomeação que, conforme dito, somente se aplica para aos que irão ocupar cargos públicos. Apontam que, sob a ótica da hierarquia de normas, um provimento não pode se fazer de lei ordinária, inovando no ordenamento jurídico, muito menos sobrepô-la, diante disso um provimento não poderia estar na mesma hierarquia de uma Lei Federal. Declaram que ao disciplinar via provimento legal, matéria de competência legal, o Conselho Nacional de Justiça extrapola suas funções regulamentares constitucionalmente previstas. Ao final, pugna pela concessão da segurança para suspender os efeitos do art. 2º, § 2º do Provimento 77/2018, via de consequência, mantendo-se os representados pelos impetrantes nas suas funções em suas respectivas serventias.

Deferida parcialmente a liminar (doc. ordem nº 18), para manter os representados pelos impetrantes no cargo de oficial interino de serventia, até o julgamento final do presente mandado de segurança.

Informações da autoridade coatora apresentadas no doc. de ordem nº 25, em que suscita preliminar de ilegitimidade passiva. No mérito, pugna pela denegação da segurança.

Parecer da Procuradoria de Justiça (doc. ordem nº 28) pelo acolhimento das preliminares. No mérito, pela denegação da segurança.

É o relatório.



Preliminar



I) Ilegitimidade Passiva



Ab initio, tenho que a preliminar de ilegitimidade passiva do Desembargador Corregedor Geral de Justiça do Tribunal de Justiça de Minas Gerais não merece guarida.

É que o ato impugnado pelos impetrantes, o Aviso da Corregedoria nº 04/CGJ/2019, conquanto esteja embasado no Provimento nº 77/18 do CNJ, tem sua efetividade condicionada à competência da autoridade coatora apontada neste mandamus, que delega ao Juiz Corregedor a exigência de declarações e práticas dos respectivos atos referentes à designação de responsável interino pelos expedientes das serventias extrajudiciais vagas, para que se cumpra o mencionado provimento do CNJ.

Aliás, como já sumulado pelo STF, a delegação não retira a competência da autoridade delegada para responder pelos atos por ela diretamente praticados:

"Súmula 510. Praticado o ato por autoridade no exercício de competência delegada, contra ela cabe o mandado de segurança ou medida judicial."



Cumpre, ainda, registrar, que este Órgão Especial, rejeitou a preliminar de ilegitimidade da autoridade coatora, mutatis mutandis, quando o Juiz apenas pratica atos por delegação de órgãos de Direção deste Tribunal:



"Sob a ótica do STJ, o Presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais é legitimado passivo para figurar no mandado de segurança em decorrência de ato praticado por Juiz Auxiliar porquanto tem condições de corrigir o ato administrativo praticado pelo subordinado.

(...)."

(TJMG - Mandado de Segurança 1.0000.17.053942-3/000, Relator (a): Des.(a) Alberto Vilas Boas , ÓRGÃO ESPECIAL, julgamento em 25/04/2018, publicação da sumula em 04/05/2018)



"1.(...)

2. A legitimidade passiva, no mandado de segurança, decorre de a autoridade apontada como impetrada ter competência para determinar a prática de ato apontado omissivo ou desfazer o comissivo.

3. O Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais é parte passiva legítima para o mandado de segurança impetrado contra omissão na nomeação de candidato porque a delegação dos poderes a Juiz Auxiliar da Presidência não exclui a sua competência para prática do ato.

(...)

9. Segurança denegada, não conhecida uma preliminar e rejeitadas outras duas." (TJMG - Mandado de Segurança 1.0000.18.010660-1/000, Relator (a): Des.(a) Caetano Levi Lopes , ÓRGÃO ESPECIAL, julgamento em 27/02/2019, publicação da sumula em 23/04/2019).

Isso posto, rejeito a preliminar de ilegitimidade passiva.

II) Inadequação da via



Na espécie tenho que o ato administrativo tem efeito concreto, pois a declaração a ser firmada pelos representados dos impetrantes, por óbvio, que poderá comprometer o exercício das funções do impetrante, como substituto interino de serventia extrajudicial vaga.



Ademais, como já decidido por este Tribunal há que "se rejeitar a preliminar de inadequação da via eleita, cuja matéria aventada confunde-se com o próprio mérito da questão debatida, onde deve ser analisada." (TJMG - Mandado de Segurança 1.0000.17.107794-4/000, Relator (a): Des.(a) Áurea Brasil , ÓRGÃO ESPECIAL, julgamento em 25/04/2018, publicação da sumula em 27/04/2018).



Assim, rejeito a preliminar de inadequação da via.



Mérito



Como se vê, trato de mandado de segurança pelo qual os impetrantes apontam por ilegal o ato praticado pela autoridade coatora, embasado no Aviso da Corregedoria nº 04/CGJ/2019, que em cumprimento ao Provimento nº 77/18 do CNJ, dispôs:

"AVISO Nº 4/CGJ/2019

Avisa sobre a publicação do Provimento da Corregedoria Nacional de Justiça nº 77, de 7 de novembro de 2018, que dispõe sobre a designação de responsável interino pelo expediente dos serviços notariais e de registro.

O CORREGEDOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, no uso das atribuições que lhe conferem os incisos I e XIV do art. 32 do Regimento Interno do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, aprovado pela Resolução do Tribunal Pleno nº 3, de 26 de julho de 2012,

CONSIDERANDO a obrigação dos serviços extrajudiciais de cumprir as normas técnicas estabelecidas pelo Poder Judiciário, nos termos dos arts. 37 e 38 da Lei nº 8.935, de 18 de novembro de 1994, que"regulamenta o art. 236 da Constituição Federal, dispondo sobre serviços notariais e de registro. (Lei dos cartórios)";

CONSIDERANDO a publicação do Provimento da Corregedoria Nacional de Justiça nº 77, de 7 de novembro de 2018, que dispõe sobre a designação de responsável interino pelo expediente dos serviços notariais e de registro;

CONSIDERANDO que o art. 8º do Provimento da CNJ nº 77, de 2018, determina que os Tribunais deverão adequar as designações dos atuais interinos, em até 90 (noventa) dias;

CONSIDERANDO o que ficou consignado no processo do Sistema Eletrônico de Informações - SEI nº 0132203-59.2018.8.13.0000,

AVISA aos juízes de direito, servidores, notários e registradores do Estado de Minas Gerais, para ciência e adoção de eventuais providências, que foi publicado o Provimento da Corregedoria Nacional de Justiça nº 77, de 7 de novembro de 2018, que dispõe sobre a designação de responsável interino pelo expediente de serventias extrajudiciais vagas.

AVISA, também, que os oficiais interinos deverão preencher declaração, conforme modelo anexo ao presente Aviso, com posterior remessa à Direção do Foro da comarca e à Corregedoria-Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais - CGJ, até o dia 5 de fevereiro de 2019, informando se as restrições contidas no § 2º do art. 2º e no art. 3º do Provimento da CNJ nº 77, de 2018, lhe são aplicáveis."



Por sua vez, o Provimento nº 77/2018 do CNJ, ao dispor sobre as regras de designação do responsável interino das serventias extrajudiciais vagas, considerando as atribuições constitucionais e as próprias decisões do próprio CNJ que repele qualquer forma de nepotismo estabeleceu em seu art. 2º:

Art. 2º Declarada a vacância de serventia extrajudicial, as corregedorias de justiça dos Estados e do Distrito Federal designarão o substituto mais antigo para responder interinamente pelo expediente.

§ 1º A designação deverá recair no substituto mais antigo que exerça a substituição no momento da declaração da vacância.

§ 2º A designação de substituto para responder interinamente pelo expediente não poderá recair sobre cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau do antigo delegatário ou de magistrados do tribunal local.

(...)

Art. 8º Os tribunais deverão adequar as designações dos atuais interinos às regras deste provimento em até 90 dias.



Ora, o colendo Conselho Nacional de Justiça, órgão responsável, entre outras atribuições, de zelar pela observância do artigo 37, da Constituição da República e apreciar a legalidade dos atos administrativos praticados por membros ou órgãos do Poder Judiciário, ao editar o Provimento nº 77, apenas reforçou a vedação de práticas de nepotismo nas serventias extrajudiciais.



Destaco que a moralidade administrativa como princípio, segundo escreve Hely Lopes Meireles, "constitui hoje pressuposto da validade de todo ato da Administração Pública" (Direito Administrativo Brasileiro, p.68-69). Não se trata - diz Hauriou, o sistematizador de tal conceito - da moral comum, mas sim de uma moral jurídica, entendida como "o conjunto de regras de conduta tiradas da disciplina interior da Administração". Assim, o administrador, ao agir, deverá decidir não só entre o legal e o ilegal, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas também entre o honesto e o desonesto."

É certo que com as serventias extrajudiciais se dá a delegação de serviço público, não sendo, aqui, o campo de discussão da natureza dos tabeliães, se servidores públicos ou não; o discutível neste caso é que ali há a prática de serviços públicos delegados aos oficiais interinos, que, por óbvio, se submetem aos princípios insculpidos no art. 37 da CR, dentre eles o da moralidade, o que impõe a vedação de qualquer prática de nepotismo.

A gestão da coisa pública realizada pelo oficial interino deve-se orientar pelo princípio da moralidade, que surge para coibir as arbitrariedades e os excessos cometidos pelo Poder Público, na esfera da discricionariedade, pois a exigência do comportamento conforme a moralidade representa evolução do controle de desvio de finalidade ou de excesso de poder e, por consequência, veda a prática de nepotismo, como define Maria Sylvia Zanella di Pietro:

"Sempre que em matéria administrativa se verificar que o comportamento da Administração ou do administrado que com ela se relaciona juridicamente, embora em consonância com a lei, ofende a moral, os bons costumes, as regras de boa administração, os princípios de justiça e de equidade, a ideia comum de honestidade, estará havendo ofensa ao princípio da moralidade administrativa.

O nepotismo viola o princípio da moralidade, porque o Administrador Público deve sempre escolher, a bem do interesse público, o candidato, servidor, ou funcionário que melhor servir à Administração. A vedação ao nepotismo e ao favorecimento relaciona-se também ao princípio da impessoalidade, porque como verdadeiro escopo da Administração, tem-se que a escolha não deve se basear apenas em laços afetivos ou sanguíneos existentes entre o candidato e o administrador.

O nepotismo atenta, ainda, contra o princípio da igualdade, porque se concede benefício a pessoas ou grupos apenas por serem cônjuges, companheiros ou parentes, discriminando-os em relação aos demais que estão nas mesmas condições de ocupar ocargo, emprego ou função."(Direito Administrativo, 20ª edição, São Paulo: Ed. Atlas, pág. 70.)



Assim, é que relacionado com os princípios da moralidade administrativa, impessoalidade e eficiência a proibição do chamado nepotismo foi objeto da Súmula Vinculante 13:"A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal."

Diante disso, como se extrai do informativo 516 do STF, no julgamento do Recurso Extraordinário 579951/RN, que teve como Relator o Ministro Ricardo Lewandowski,"ressaltou-se que o fato de haver diversos atos normativos no plano federal que vedam o nepotismo não significaria que somente leis em sentido formal ou outros diplomas regulamentares fossem aptos para coibir essa prática, haja vista que os princípios constitucionais, que não configuram meras recomendações de caráter moral ou ético, consubstanciam regras jurídicas de caráter prescritivo, hierarquicamente superiores às demais e positivamente vinculantes, sendo sempre dotados de eficácia, cuja materialização, se necessário, pode ser cobrado por via judicial. Assim, tendo em conta a expressiva densidade axiológica e a elevada carga normativa que encerram os princípios contidos no caput do art. 37 da CF, concluiu-se que a proibição do nepotismo independe de norma secundária que obste formalmente essa conduta."

Conclui-se, portanto, que não há ilegalidade no ato normativo contido no Provimento 77/2018 do CNJ, que coíbe práticas de nepotismo, para validar os princípios constitucionais que regem a Administração Pública e, repita-se, o serviço público delegado aos representados pelos impetrantes, eis que a nomeação de parentes ofende os princípios da moralidade e da impessoalidade.

Há que se registrar que o cumprimento do Provimento 77/2018 do CNJ, por meio do Aviso da Corregedoria nº 04/CGJ/2019, apenas ratifica o dever do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais em reconhecer a inconstitucionalidade de atos normativos que vedam a aplicação do disposto no art. 37 da CR, bem como a prática de nepotismo.

Desta forma, não verifico qualquer violação ao direito líquido e certo dos representados pelos impetrantes, que, aliás, somente assumiram a interinidade porque antes foram indicados à função de escreventes substitutos, por delegatários antecessores, do qual eram os representados parentes até o terceiro grau, em flagrante prática de atos de nepotismo, não mais admissível pela ordem constitucional em vigor.

Aliás, em recente decisão do Supremo Tribunal Federal foram ratificadas as designações revogadas com base em Resolução 80, do Conselho Nacional de Justiça, que ao dispor sobre a vacância dos serviços notariais e de registro ocupados em desacordo com as normas constitucionais pertinentes à matéria, estabeleceu regras que proibiam o nepotismo.

Na decisão do eminente Ministro Dias Toffoli reconheceu-se a legalidade do ato do Corregedor de Justiça que no uso de suas atribuições deu cumprimento aos atos normativos do CNJ e revogou designações de oficiais que atuavam interinamente em serventias extrajudiciais vagas com vínculo de parentesco com os ex-delegatários:

"Isto porque esta Corte reconhece a constitucionalidade de atos normativos que concretizam diretamente normas emanadas de preceitos constitucionais, a exemplo da Resolução nº 7/05 do CNJ, que proibiu a prática de nepotismo no âmbito do Poder Judiciário, conforme restou reconhecido no julgamento da ADC nº 12/DF-MC, in verbis:"A Resolução nº 07/05 se dota, ainda, de caráter normativo primário, dado que arranca diretamente do § 4º do art. 103-B da Carta-cidadã e tem como finalidade debulhar os próprios conteúdos lógicos dos princípios constitucionais de centrada regência de toda a atividade administrativa do Estado, especialmente o da impessoalidade, o da eficiência, o da igualdade e o da moralidade. O ato normativo que se faz de objeto desta ação declaratória densifica apropriadamente os quatro citados princípios do art. 37 da Constituição Federal, razão por que não há antinomia de conteúdos na comparação dos comandos que se veiculam pelos dois modelos normativos: o constitucional e o infraconstitucional. Logo, o Conselho Nacional de Justiça fez adequado uso da competência que lhe conferiu a Carta de Outubro, após a Emenda 45/04" (Relator o Ministro Ayres Britto, DJ de 1º/9/06). A proibição do nepotismo decorre diretamente dos princípios contidos no art. 37, caput, da Constituição Federal, os quais "exigem que o agente público paute sua conduta por padrões éticos que têm como fim último lograr a consecução do bem comum" (RE nº 579.951/RN-RG, Relator o Ministro Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, repercussão geral - mérito, DJe de 24/10/08). Ademais, a jurisprudência desta Corte reconhece aos conselhos instituídos pela EC nº 45/04 a competência para promover a fiscalização dos atos administrativos dos tribunais a partir dos princípios constitucionais da Administração Pública, consagrados no art. 37, caput, da Constituição Federal. Nesse passo, ainda sem adentrar no exame do acerto das deliberações combatidas, a revogação da interinidade nas serventias extrajudiciais por desconformidade ao princípio da moralidade se insere, em tese, na esfera de controle principiológico sobre os atos dos tribunais pátrios reservada ao CNJ por expressa determinação constitucional (art. 103-B, § 4º, II, da CF/88). Por isso não se pode inferir autonomia do TJMA, que se encontra administrativamente submetido àquele Conselho. No núcleo fixo do princípio da moralidade, em que pese a dificuldade de se delimitarem todas as hipóteses nele inseridas, de certo, reside a exigência de um padrão ético de conduta administrativa compatível com a função pública exercida e com a finalidade do ato praticado. Tendo o princípio da moralidade força normativa extraída do próprio texto constitucional, portanto, sua observância é obrigatória por todos os entes federativos e pelos agentes investidos em funções públicas."(STF - SS 5260 - Ministro DIAS TOFFOLI - 04/06/2019).



Com tais considerações, revogo a liminar concedida e denego a segurança.



Sem custas.





DES. GERALDO AUGUSTO

Quanto às preliminares (ilegitimidade passiva do eminente Desembargador Corregedor-Geral de Justiça e inadequação da via eleita), acompanha-se, integralmente, os fundamentos contidos no voto do eminente Desembargador Relator, que as rejeitou, por seus próprios termos e estarem de acordo e adequadas com o direito e os fatos que a questão presente em julgamento envolvem.



Este Tribunal de Justiça, através deste mesmo Órgão Especial, por inúmeras vezes já se manifestou e assentou entendimento sobre tal legitimidade e adequação da via eleita, tanto do do Presidente do Tribunal de Justiça, quanto do Corregedor-Geral de Justiça, especificamente, em se tratando de alegado cumprimento de Resoluções editadas pelo CNJ (entre eles, o Mandado de Segurança 1.0000.14.0133554-7/000 - OE/TJMG - Rel. Des. Geraldo Augusto, pub. 19/09/2014).



REJEITAM-SE, POIS, AS PRELIMINARES.



Quanto ao mérito, embora o merecido respeito ao entendimento contido no voto do eminente Desembargador Relator, apresenta-se respeitosa divergência.



Trata-se, em resumo, de mandado de segurança preventivo com pedido liminar, em virtude de justo receio dos impetrantes de verem sofrer os seus representados violação a direito líquido e certo por parte do eminente Desembargador Corregedor Geral de Justiça do Estado de Minas Gerais, na medida em que foi aquela autoridade que expediu o Aviso da Corregedoria nº 04/CGJ/2019, mencionando o Provimento nº 77/18 do CNJ, solicitando a manifestação dos notários e registradores interinos representados sobre a relação de parentesco existente entre si e o anterior titular do Cartório Extrajudicial, supostamente caracterizadora de nepotismo, e com a consequente e posterior adoção de providências visando o afastamento da função interina exercida pelos representados dos impetrantes.



O que se questiona, em resumo, não é a referida Resolução do Conselho Nacional de Justiça, na sua essência, contrária ao nepotismo e em defesa ao princípio da moralidade, estabelecido pela norma constitucional. O que se questiona, repita-se, e o que se deve verificar é o enquadramento da situação de fato dos representados pelos impetrantes à situação de norma da Resolução, isto é, se em suas circunstâncias específicas e caso concreto enquadra-se na referida norma. Nada mais.

Segundo o Supremo Tribunal Federal"a edição de atos regulamentares ou vinculantes por autoridade competente para a orientação da atuação dos demais órgãos ou entidades a ela vinculados quanto à configuração do nepotismo não retira a possibilidade de, em cada caso concreto, proceder-se à avaliação das circunstâncias à luz do art. 37, caput, da CF/88"(MS 31697/DF, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, DJe de 02/04/2014).



Em princípio, somente pode ser caracterizado nepotismo a prática que viola as garantias constitucionais de impessoalidade/moralidade administrativa, com o estabelecimento de privilégios em função dos vínculos de parentesco e, consequentemente, em desconsideração da capacidade técnica para o exercício do cargo público ou em substituição da avaliação meritória.



De plano, tem-se, então, altamente polêmica a questão envolvendo alegado nepotismo dos Notários e Registradores dos Cartórios Extrajudiciais, tendo em vista que exercem, sem dúvida, serviço público delegado, de caráter essencialmente privado e de que, por consequência, não são abrangidos pelo regime estatutário, inclusive, com funcionários contratados, celetistas e recebendo remuneração por conta de receita do próprio Cartório, portanto, não pública.



A própria Resolução anterior nº 07/2005-CNJ, bem como a Súmula Vinculante nº 13, do STF (principal norma que embasa, administrativamente, o conceito e a caracterização do nepotismo pelo CNJ no âmbito do Poder Judiciário) e do enunciado administrativo nº 01-Nepotismo-CNJ que estendeu a aplicação aos serviços de Cartórios Extrajudiciais, nos casos de interinos, nada dispôs sobre a relação do titulares desses Cartórios com seus funcionários, nem mesmo de eventual relação do interino com o antigo titular. E expressamente se restringiu à nomeação de interino e sua relação de parentesco com o Magistrado que o designou.



É o caso destes autos. Os representados pelos impetrantes não foram nomeados. Conforme a melhor doutrina a respeito, nomeação é ato de provimento de cargo.



Os referidos representados pelos impetrantes foram apenas designados interinamente, por ato anterior da Corregedoria de Justiça, ato este que pode ser feito pelo próprio Corregedor-Geral ou pelo Juiz de Direito que o represente, para exercerem a interinidade na função que hoje ocupam dos respectivos Cartórios, em caráter transitório até que sejam os mesmos providos por concurso público.



Não foram designados pelo anterior titular falecido e do que decorreu a vacância. Não se vê, então, o princípio básico ensejador do nepotismo, qual seja, o favorecimento. Ainda que se pudesse entender que os representados pelos impetrantes teriam, de alguma forma, sido favorecidos, não há a figura daquele que favoreceu e que, indiretamente, seria então, também, favorecido. Nem se mencionou, em qualquer momento, a possibilidade do eventual parentesco e/ou favorecimento em relação à autoridade judiciária que os designou.



Por outro lado, os representados pelos impetrantes cumpriram e possuem os requisitos constantes do parágrafo 2º, art. 39, da Lei 8.935/94, que rege a espécie, sendo substitutos mais antigos e, tecnicamente, habilitados e experimentados para a função.



Outrossim, os Cartórios Extrajudiciais dos quais são interinos, já estão sob" intervenção oficial "do Judiciário, através da Corregedoria de Justiça; tendo havido a vacância, foram designados os Escreventes Substitutos como Interinos e só até que se aguarde o final concurso, com o seu provimento definitivo. Este concurso, pelo que se tem notícia, está em andamento adiantado para o seu desate final.



Neste período de" intervenção ", além da fiscalização mais atenta e rigorosa, a própria renda do Cartório não fica na administração plena do interino, obrigado às prestações de contas das despesas e pagamentos dos funcionários, e, mais ainda, restritos seus emolumentos ao valor fixado pelo STF. O que sobra, seguindo para os cofres do Estado.



Este é o caso dos autos, repita-se. Não se iguala a casos de outros Estados dos quais pedidos de providências e consultas àquele órgão administrativo (CNJ) foram originados de delegações interinas que se estendiam indefinidamente pelo tempo, sem sequer abertura de concursos públicos para o provimento definitivo.



Verifica-se, pois, também, a não oportunidade de" nova vacância "do Cartório, para ser designado, outra vez, pela própria Corregedoria de Justiça, outro funcionário do Cartório ou terceiro para exercer a interinidade, apenas, pelo pouco tempo ou período restante até o provimento efetivo.



Não fosse por isso, anota-se que toda a estrutura do Cartório Extrajudicial é de competência privada de cada titular; que a mesma pertence à família sucessora/ao espólio do titular falecido e que, na hipótese de designação de outro interino, haverá gasto público a titulo de aluguéis da referida estrutura; sobretudo considerando que tais valores destinados a cobrir os gastos, sairão do volume arrecadado pelo Cartório e entregue aos cofres do Estado, que então terá diminuída a arrecadação.



Anote-se, ainda, por relevante, que as situações de nepotismo só ocorrem quando as características do cargo ou função ocupada habilitam o agente a exercer influência na contratação ou nomeação de um servidor.



Ou seja, com a devida vênia, somente pode ser caracterizada nepotismo a prática que viola as garantias constitucionais de impessoalidade/moralidade administrativa, com o estabelecimento de privilégios em função dos vínculos de parentesco e, consequentemente, em desconsideração da capacidade técnica para o exercício do cargo público ou em substituição da avaliação meritória.



Tem-se, então, que o Aviso da Corregedoria n.: 04/CGJ/2019. expedido pelo Corregedor Geral de Justiça menciona e aparentemente tomou por base a Resolução 77/18 CNJ, em amplitude genérica, sem atentar para as circunstâncias de cada caso concreto a se enquadrar perfeitamente em suas regras e a caracterizar a ocorrência de nepotismo.



Resta claro que a figura do nepotismo só se caracterizaria diante da hipótese de designação de interino prevista no § 2º do art. 39 da Lei nº 8.935/94, caso não fosse observado o comando legislativo ali previsto, ou seja, se o designado não fosse o Substituto mais antigo do Serviço e houvesse a designação pelo Magistrado de um parente seu. Tal não ocorreu.



Assim, não caracterizado objetivamente um ajuste prévio para burlar a impessoalidade, a igualdade, a moralidade e a meritocracia, que fundamentam as Resoluções a respeito do CNJ e a própria norma de regência, qual seja, parágrafo 2º, art. 39, da Lei 8.935/94, forçoso concluir pela inocorrência de nepotismo e pela violação do direito líquido e certo dos representados pelos impetrantes em continuarem no exercício da interinidade, que lhes foi anteriormente designada pela própria Corregedoria de Justiça, por seu representante.



Interpretar literalmente as disposições contidas na Resolução n. 77/18, CNJ sem analisar o caso concreto e sem subsumir adequadamente as suas normas aos fatos e aos princípios constitucionais que lhes dão fundamento de validade implica na subversão do sistema jurídico e a promoção de discriminação/preconceito, única e exclusivamente, em decorrência de uma suposta infração ao princípio da moralidade, aqui inexistente no caso concreto.



Não havendo, repita-se, sequer parentesco e/ou indícios de influência da autoridade na nomeação, no caso, mera designação para o exercício provisório de interinidade em Cartório Extrajudicial, com os requisitos legais para tal, de escrevente substituto, resta afastada a configuração de nepotismo no caso concreto e específico.



Por fim, especificamente quanto à impossibilidade da aplicação posterior da Resolução em relação a ato anterior, registre-se a decisão do STF, pelo Ministro Gilmar Mendes, no RE 678574/MG, datada de 09/11/2012, em caso assemelhado e no qual, mais grave, tratava-se até de questão do impedimento a partir do vínculo de parentesco do Magistrado da Comarca com a escrevente, indicada como Tabeliã Substituta do 2º Ofício de Notas da Comarca de Divino/MG, em princípio, vedado, expressamente, pelo parágrafo 2º, do art. 39, da própria Lei 8.935/94.



De tal decisão se extrai e se transcreve:"Conforme se depreende dos autos (fls. 102-116), tanto o juiz Maurílio Cardoso Novas (designado para a atividade de corregedoria dos serviços e notas e registro da Comarca de Divino-MG), como Daniela Drummond Baião (Tabeliã Substituta do 2º Ofício e Notas da Comarca de Divino-MG, em exercício desde 2.6.2004) já desempenhavam suas funções nos cargos em que ocupavam anteriormente à edição da Resolução 20, de 29 de agosto de 2006, do CNJ. Assim, posto se verificar a existência de situações jurídicas estabelecidas anteriormente à edição da referida resolução, esta não se aplica ao caso dos autos, não devendo Daniela Drummond Baião ser afastada do cargo por inexistir, na espécie, violação ao texto constitucional e à resolução".



Com tais razões, CONCEDE-SE A SEGURANÇA para determinar que a autoridade apontada como coatora se abstenha de impor, em relação aos representados pelos Impetrantes, as consequências do Aviso n. 04/CGJ/2019 e disposto na Resolução 77/18, CNJ, como óbice à continuidade do exercício do cargo/ função interina a que foram designados anteriormente pela própria Corregedoria de Justiça, até que seja provida efetivamente a titularidade do Cartório Extrajudicial, em decorrência de concurso público já em andamento.



Sem custas e honorários advocatícios.



DES. EDGARD PENNA AMORIM

Ao exame dos autos, verifico desde logo que figuram como patrocinadores da parte requerente advogados vinculados ao escritório" Carvalho Pereira Fortini Advogados ", cujo quadro foi integrado por minha filha, a advogada ISADORA MENDES PENNA AMORIM, até 30/11/18, portanto em período anterior ao ajuizamento da presente ação. Bem por isto, deixo de declarar meu impedimento, diante da não ocorrência da hipótese do § 3º do art. 144 do CPC.

Acompanho integralmente o voto do em. Relator, com o destaque de que, relativamente à alegada ilegitimidade passiva do CORREGEDOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, somente a supero por se tratar de mandado de segurança coletivo preventivo.

DES. DÁRCIO LOPARDI MENDES

No caso sob exame, embora questionável a legitimidade da Associação impetrante, por se tratar de direito individual, diante da ausência de direito líquido e certo, estou acompanhando o eminente Relator.



DES. WANDER MAROTTA - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. CAETANO LEVI LOPES - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. AUDEBERT DELAGE - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. MOREIRA DINIZ - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. PAULO CÉZAR DIAS - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. EDILSON OLÍMPIO FERNANDES - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. ARMANDO FREIRE - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. WANDERLEY PAIVA - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. MOACYR LOBATO - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. ALEXANDRE SANTIAGO - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. EDISON FEITAL LEITE - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. RENATO DRESCH - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. GILSON SOARES LEMES - De acordo com o (a) Relator (a).

DESA. MÁRCIA MILANEZ - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. ANTÔNIO CARLOS CRUVINEL - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. AMAURI PINTO FERREIRA - De acordo com o (a) Relator (a).



SÚMULA:"Á UNAMIDADE REJEITARAM AS PRELIMINARES E, POR MAIORIA, DENEGARAM A SEGURANÇA"